Viva o Gole

Way Beer – Holy Imperial Brown Ale com semente de Amburana

No texto sobre a Melgueira, da Três Orelhas, eu começo dizendo que “Há meses que eu via o rótulo amarelo no fundo da geladeira, certamente ela não merecia o descaso.”, como se precisasse me justificar para ela, quem a fez ou quem me deu a cerveja. Acho que a intenção foi valorizar a bebida, mas após degustar a deste texto entendo que nunca foi descaso.

A Holy, uma Imperial Brown Ale da Way, de Curitiba, está na minha geladeira há pelo menos 8 anos. Sim, 8 anos e, destes, quase 5 “vencida”. 

Foi descaso deixá-la ali sem a certeza de que ela duraria todo esse tempo? Não. Quem ama bebida sabe o quão legal é guardar uma especial para um momento especial, e em se tratando de uma Brown Ale (que eu adoro) com sementes de Amburana (diferente e curioso), a Holy se acomoda bem na prateleira das “especiais”. 

Mas cá estou eu, depois de um dia inteiro com dor de cabeça, bebendo uma cerveja de 9.6% de álcool, e refletindo sobre descaso. Guardei essa cerveja (e esqueci dela em vários momentos) por 8 anos por ser especial e decidi abri-la em um dia “não especial”. 

O que define um dia especial? Como você reconhece esse momento, estando dentro dele? Olhamos e vivemos muito no futuro, mas quando não estivermos mais aqui fisicamente, teremos a oportunidade de olhar pra trás e reconhecer os momentos especiais? 

Eu acreditava no meu estudo e em que essa cerveja não estaria estragada, mas eu não tinha certeza e que seria assim. E agora, escrevendo entre goles, consigo valorizar esse momento como poucos. Me reconhecer como sommelier e sentir tudo o que o cervejeiro quis colocar nessa garrafa há quase 10 anos atrás!!! 

Acho que dá para chamá-la de cerveja de guarda. Normalmente ela perde álcool, reforça aromas de madeira, ganha corpo e evolui. De quê adianta? Eu não sei como ela era 8 anos atrás hahaha. A Way Holy Imperial Brown Ale com Semente de Amburana que eu conheço é só essa. A deste momento.

Em 8 anos de porta da geladeira abrindo, essa cerveja viu muita coisa na minha vida. Casas, pessoas, companhias, outras cervejas, comidas, vinhos… Eu fui um sommelier lá e sou outro hoje. Melhor, pior, tanto faz, é neste momento que eu estou vivo. Eu e ela evoluímos na garrafa para chegar juntos nesse momento especial.

Ela bem doce e alcoólica, licorosa, com esse aroma de amburana perfeitamente agregado. Amargor só no fim, quando você já lambe os lábios e o canto da boca por conta do doce caramelo. O teor alcoólico, bem presente, traz o calor que acolhe e fica essa sensação de Vinho do Porto bem interessante.

Eu continuo doce e evoluindo, assistindo a porta da geladeira abrir e fechar, esperando por um momento especial. Só me falta entender que:

Todo dia é especial.

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