Há meses que eu via o rótulo amarelo no fundo da geladeira, certamente ela não merecia o descaso. É verdade que em momentos de menor motivação as Spaten e Heinekens costumam ficar na frente. E também é verdade que um grupo de Paulaner Salvator, vinda de uma promoção mágica, teria seu acesso antecipado.
Mesmo assim, a Melgueira definitivamente não merecia o descaso. Não que merecesse a prioridade máxima, mas pela espuma que vazou da garrafa assim que abri, ficou evidente que ela já estava ansiosa há um bom tempo.

Decidi abrir. Tinha feito um mignon de porco com couscous marroquino e geleia de manga e maracujá no dia anterior, e acreditei que seria uma boa combinação para meu jantar. Foi, mas a gente chega lá.
É engraçado como a companhia faz diferença. Dia ruim, pé encharcado, cabeça cheia. Encontro meu irmão de coração (com quem moro) numa situação na qual nunca havíamos nos encontrado. Chego em casa decidido a estudar e ele me acompanha. O foco vira, a cabeça relaxa e se prepara para fazer o que mais ama: beber cerveja. Até a Melgueira vazar e eu correr para pegar papel para limpar a bagunça.
A degustação começa quando você abre a garrafa: carbonatada…aaaaaa. Primeira impressão. Papel. Serviço da taça irregular (uma com muito mais espuma que a outra).
Spoiler: A Melgueira, da Três Orelhas, cumpre bem seu papel dentro do estilo Belgian Pale Ale.
Não na cor. E aí vem a minha opinião crítica: Passou perto.
O guia do BJCP dá uma variação entre âmbar e cobre. Entendemos mais como dourado. Passou perto.
Boa espuma branca, carbonatação alta com algum perlage. Mais turva do que deveria. Passou perto.
Essa turbidez, aparentemente servida pelas leveduras, também fez seu papel no aroma, mas o mel silvestre adicionado apareceu timidamente. Pão francês e lima-da-pérsia para mim. Pão francês e nozes para ele. Mas concordamos que o aroma de fermentação dominou. Nada errado para o guia, mas achei que faltou um perfil um pouco mais maltado. Passou perto de ser ótimo.
Na boca foi bem: Suave, corpo médio, carbonatação… você já sabe. No sabor, de novo o fenólico da fermentação foi dominante, assim como a saliva que a acidez propôs. Gostei de entender um pão italiano (pão branco + acidez). O frutado, que deveria ser imponente, para mim, não foi. E aí depois de pouco tempo o gosto que sobra é o amargo. Mais uma vez, dentro do estilo, passou perto de ser perfeitamente equilibrada
A harmonização foi bem. Mas a fome e o assunto destoaram. Você esperava mais da harmonização? Eu já tinha esperado muito.
Resultado: 2,5 de 5. Uma boa cerveja, vem bem em qualquer momento e bem fresquinha, direto do barril pode ser que seja mais redonda. Um bom treino do estilo Belgian Pale Ale, mas só passou perto de ser uma bela opção.
E o dia termina melhor.